Se você já se preocupou em pesquisar acerca do perfil esperado do profissional do novo milênio, “criatividade” e “capacidade inventiva” são qualidades que GARANTO você escutará repetidamente.
Natural, não? Nobody wants a dull guy! Principalmente em consultorias! As soluções ordinárias VOCÊ pode pensar sozinho. Se está se dando ao trabalho de contratar um consultor, é porque precisa de algo fora do comum, certo?
E quanto ao seu advogado? O que espera dele?
Em conversa recente com Mauro Amaral, editor-chefe do Carreirasolo.org, Contemconteudo.org e Falafreela.com.br, expus minha opinião sobre o assunto, reproduzida abaixo com modificações.
Como advogado, minhas possibilidades de marketing são reduzidas ao buzzing, quase que exclusivamente, eis que qualquer publicidade que soe “mercadológica” é vedada e suas conseqüências, bastante sérias.
Outra alternativa é a contratação de uma boa assessoria de imprensa para divulgar minhas opiniões acerca de atualidades, cujas conseqüências jurídicas sejam, digamos, “populares”!
Era de se esperar, portanto, que a criatividade e a inovação fossem elementos essenciais na advocacia, certo?
Todavia, conforme um parceiro comentou comigo, parece que os escritórios brasileiros descobriram recentemente o fordismo, e estão maravilhados com as possibilidades financeiras dele decorrente.
Mas… fordismo? Indústrias alienantes, Charles Chaplin, fordismo??? E aquela história toda ali de cima de que os escritórios de advocacia não podem operar de forma mercadológica? E aquele papo de que advogados são remunerados por meio de honrosos honorários?
A verdade é que, debaixo de toda aquela fleuma, quase clérica, de dignidade e desprezo por questões menores como “lucro”, os escritórios de advocacia, principalmente as grandes bancas, são verdadeiras empresas jurídicas disfarçadas, sendo que muitas delas não são nem um pouco sustentáveis.
Se você já estagiou em algum desses escritórios, sabe do que estou falando. Alguns rarí$$imos clientes têm a oportunidade de serem recebidos, ou mesmo atendidos, pelo “sociozão” com sobrenome italiano ou alemão, mas te garanto que quem cuidará do seu processo será um sócio menor que o repassará a algum dos vários associados a quem gerencia, cada um com 100 processos cada sob sua responsabilidade, e que, por seu turno, os repassará a algum dos advogados que recebem R$ 3.000,00 ao mês, ou a algum estagiário que ainda nutra a esperança por um mundo melhor (com uma bolsa de R$ 600,00).
O interessante é que, de todas as profissões (lícitas) do MUNDO, a advocacia é uma das poucas que dispensam investimentos em equipamentos, infra-estrutura, tecnologia, para sua prática! É, portanto, uma profissão excelente para home-office e tele-trabalhos, certo?
Todavia, o que se observa é um movimento contrário de concentração de profissionais em grandes firmas, aquisições de salas grandes e imponentes (às vezes até prédios inteiros). E por que motivo? CONFIABILIDADE!
A advocacia também é uma das profissões mais tradicionais existentes e, nela, o que importa é a imagem de confiabilidade e segurança. Você quer que seu cliente saiba que em você ele pode confiar. Que você olhe aqueles tomos antigos e frases escritas no antigo e hermético idioma do “juridiquês”, use sua pedra de Roseta e resolva o problema o mais rápido possível!
Mas… como transmitir “confiabilidade e segurança”? Como dizer para o cliente que, COM CERTEZA, a causa está ganha e seus problemas serão resolvidos? Afinal, não é por isso que eles o procuraram? Por uma solução? A resposta é simples:
- NÃO HÁ COMO!
“HEIN?”
Esse tipo de certeza é algo que todo advogado que não pode oferecer… sabe aquela história de “cabeça de juiz e bumbum de neném”. O que fazer então? Apresentar um escritório cuja “imponência”diga isso para o cliente. Segurança e certeza são traduzidos para imponência e austeridade, por meio de móveis de madeira nobre, escura.
Ao cabo e ao fim, o advogado acredita que importa mais manter uma postura repleta de empáfia e soberba que transmita a imagem de “bem-sucedido” do que escutar e debater o problema sob o ponto de vista de seu cliente.
Vamos imaginar o seguinte cenário agora… Há um problema sério para sua organização. Um problema jurídico para o qual você não estava preparado e não tem a menor idéia de como resolver. Um problema bastante custoso. O que prefere? a) um advogado criativo e inovador com 7 diferentes soluções que podem, inclusive, evitar uma contenda jurídica; ou…b) um advogado imponente, barba e cabelos grisalhos, “cara de conteúdo”, por detrás de uma mesa cara, usando ternos caros, livros antigos, etc…?
A resposta deveria ser “qualquer um deles”, mas sabemos a verdade, certo?
A impressão é que “criatividade” e “inovação” não são idéias muito bem aceitas para quem busca solução para um problema que acabou de acontecer! O problema já está ali, na cara do cliente e ele não sabe o que fazer com aquilo! Ele quer alguém que saiba, ou que o convença de que saiba, e pronto.
Por isso aposto na advocacia preventiva. Antecipar problemas, criar soluções: aqui sim há espaço para criatividade e inovação. Para vender criatividade e inovação não é preciso uma estrutura grande, imponente e cara. Todos os meus clientes sabem que trabalho em casa. Agendo minhas reuniões em suas sedes ou, se necessário, alugo um daqueles escritórios “sob demanda”. Não há necessidade em manter um escritório austero “just for show” e repassar esse “peso-morto” para meus clientes.
O problema é vender essa idéia num país em que a auto-medicação é o mote. Prevenção e planejamento? Pra quê? Brasileiros só procuram o médico quando o dedão do pé já está verde de tanto “futucar” e tacar água boricada, e na advocacia não é diferente.
Direito & Mercado, a última cruzada!
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