
Aviso aos navegantes: Esse é um working paper! Leia por sua própria conta e risco.
Em seu artigo seminal [1], FRIEDMAN procura discutir e, quiçá, sanar alguns problemas metodológicos comumente levantados na Economia como ciência positiva distinta, mormente no que tange a estabelecer critérios sobre como decidir se uma hipótese ou teoria deve ser aceita em seu corpo de conhecimento sistematizado.
Antes disso, porém, a primeira parte do artigo expõe, brevemente, a Economia sob perspectiva normativa e positiva e as influências desta última para soluções da primeira. Resumindo suas conclusões, as conclusões da Economia positiva são imprescindíveis para que políticas públicas propostas pela Economia normativa sejam atingidas da melhor maneira possível, eis que predispostas a serem, em princípio, independentes de posições políticas, ideologias ou julgamentos normativos.
A Economia positiva deve ser julgada, assim, pela precisão, escopo e conformidade com as previsões que propõe, passível, portanto, de ser uma ciência dita objetiva que estuda as relações humanas, a despeito de o investigador ser, ele próprio, parte do objeto investigado.
Contudo, alerta o autor, a Economia normativa, conquanto possa ser conceitualmente seccionada da Economia positiva, não deve ser considerada independentemente desta. O estabelecimento de qualquer política pública depende da capacidade de se prever ou antecipar as conseqüências da escolha a ser feita. Previsão essa, necessariamente, fundamentada na Economia positiva.
Não há, é claro, uma relação direta e necessária entre expectativas das políticas a serem estabelecidas e as conclusões a que se chega com a Economia positiva, pois essas últimas são passíveis de interpretação favorável ou desfavorável, o que influenciará sua sanção ou veto pelo tomador de decisão..
O autor acredita, porém, que os diferentes julgamentos acerca de certas políticas públicas, segundo o pensamento racional ocidental, exsurgem não de diferentes interpretações de uma mesma conclusão, mas de diferentes expectativas acerca das conseqüências de se implementá-la, o que denotaria mais uma deficiência na tecnologia da Economia positiva, do que em diferenças fundamentais de valores individuais. Valores esses que, em tese, seriam os limites de uma discussão racional.
Mas qual seria o objetivo principal de uma ciência dita positiva? O autor responde: “o desenvolvimento de uma ‘teoria’ ou ‘hipótese’ que sustenta predições válidas e significativas (isto é, não truísticas) sobre fenômenos ainda não observados”[2] (ou eventos passados sobre os quais o observador deseja investigar). Tal teoria envolveria uma linguagem passível de promover um método sistemático e organizado para o desenvolvimento de um raciocínio e, em parte, um corpo de hipóteses desenhadas para possibilitar uma abstração (simplificada) da realidade complexa.
Conquanto vista, exclusivamente, sob a perspectiva da linguagem, não tenha conteúdo significativo; enquanto corpo de hipóteses, a teoria pode e deve ser julgada, como já dito, por seu poder preditivo para a classe de fenômenos que tenciona “explicar”, validando evidências fáticas como certas (válidas) ou erradas (rejeitadas); ainda que a falha em se negar a hipótese analisada não a torne válida, mas apenas incremente sua confiabilidade. É por essa razão que escolhas entre diferentes hipóteses, igualmente consistentes com as evidências disponíveis, tendem (e devem) ser, em certa maneira, arbitrárias.
Nada obstante os obstáculos acima descritos, o próprio estabelecimento de hipóteses econômicas positivas a serem avaliadas é um processo complicado e, por vezes, impossível, dadas as dificuldades de se conduzir experimentos sociais controlados. Todavia, o autor destaca, mais importante do que a dificuldade de se testar as hipóteses econômicas é coordenar a compreensão equivocada do papel das evidências empíricas em trabalhos teóricos.
Evidências empíricas atuam em dois estágios primordiais: a construção da hipótese e o teste de sua validade, haja vista que evidências utilizadas para o seu teste podem muito bem estar entre a matéria bruta utilizada para sua construção, bem como o estágio inicial de qualquer processo sempre envolva comparações de hipóteses anteriores com novas observações.
A compreensão desse papel bivalente das evidências empíricas é crucial para se evitar o equívoco, comumente difundido no estudo de ciências sociais, de que hipóteses, por possuírem não só implicações, mas também pressupostos, devem ser verificadas (e criticadas e refutadas) pela conformidade desses pressupostos com a realidade; e que esse teste seria adicional ao teste pelas suas implicações.
Nas palavras do autor, esse raciocínio “longe de contribuir um modo mais simples de discernir hipóteses válidas das inválidas, confunde o objeto estudado, produz equívocos sobre a importância da evidência empírica para a teoria econômica, promove desperdício de esforço intelectual devotado para o desenvolvimento da Economia Positiva e obstrui a construção de consenso sobre ‘hipóteses tentadas’ nesse campo”[3].
É esse o cerne do artigo de FRIEDMAN, pois a aparente relação entre a importância e relevância de uma teoria e o realismo ou veracidade de seus pressupostos não subsiste sob análise crítica. Observado que várias hipóteses verdadeiramente importantes e significativas partem de pressupostos, muitas vezes, absolutamente desconexos com a realidade. Para o autor, uma hipótese é importante se “abstrai elementos notórios e cruciais da massa de circunstâncias complexas e repleta de detalhes que circundam o fenômeno a ser explicado e permite predições válidas por eles próprios”[4].
Tem-se, desse modo, que a questão relevante a ser feita sobre os pressupostos de uma teoria não é se são realísticos (pois nunca são), mas se são aproximações suficientemente boas para o propósito em mãos. E essa questão só pode ser respondida verificando as predições da teoria após especificadas as circunstâncias sob as quais esta deverá funcionar.
Vale dizer, os pressupostos especificam (mas não determinam) as circunstâncias sob as quais se espera que determinada teoria seja válida. Assim sendo, afirmar que uma teoria não funciona em determinada hipótese porque seus pressupostos são falsos é diferente de afirmar que os pressupostos são falsos para determinada hipótese porque a teoria não funciona.
Assim sendo, a proposta da teoria da escolha racional, que descreve o comportamento de firmas individuais como se estas buscassem, racionalmente, maximizar seus ganhos e possuísse todo o conhecimento técnico e dados necessários para suceder em seu intento, não deve ser testada por esses pressupostos, mas pela sua capacidade preditiva do comportamento dessas firmas.
Esse é, aliás, o grande erro, segundo FRIEDMAN, da maioria dos críticos da teoria da escolha racional, que indicam diversas evidências apontando que executivos, em geral, quando questionados, afirmam não pensar conforme os pressupostos indicariam. Ou seja, não possuem todo o conhecimento técnico necessário, não calculam todas as hipóteses possíveis e não buscam a maximização de lucros em todas as situações possíveis, como se essa fosse a questão relevante.
Uma teoria, tal como um mapa, é, certamente, um recorte abstrato da realidade e, como tal, estará sempre, em algum grau, dissociada da realidade. Que utilidade, é bom questionar, teria um mapa em escala 1:1 ou uma teoria que descrevesse, à perfeição, o mundo real, do comportamento à cor do cabelo dos tomadores de decisão?
É certo que a confusão que se estabelece entre descrição precisa e relevância analítica levou, não só a críticas irrelevantes sobre questões irrelevantes das teorias econômicas, como ao desperdício de valiosos esforços para sanar esses supostos defeitos. Os tipos ideais, em modelos econômicos abstratos, não servem, como gostariam os críticos, para serem descrições diretas e completas de entidades observadas no mundo real, eis que os próprios modelos não têm essa pretensão.
Concluindo o artigo, FRIEDMAN deixa clara sua opinião sobre a forma como que as teorias econômicas devem ser lidas por seus operadores e críticos. Sabendo-se que a construção de hipóteses é um ato criativo que envolve inspiração, intuição e invenção, não deve ser julgada pelos seus pressupostos, mas pela sua capacidade de descrever o objeto que pretende, dentro do escopo estabelecido. Esse processo “precisa ser discutido em categorias psicológicas, não lógicas; estudado em autobiografias e biografias, não em tratados sobre o método científico; e promovidas por máximas da experiência e exemplos, não silogismos ou teoremas”[5].
[1] FRIEDMAN, Milton. The Methodology of Positive Economics. In Essays in Positive Economics. University of Chicago Press (1953), 1970.
[2] The ultimate goal of a positive science is the development of theory” or “hypothesis” that yields valid and meaningful (i.e., not truistic) predictions about phenomena not yet observed. (Tradução livre). FRIEDMAN, Milton. The Methodology of Positive Economics. In Essays in Positive Economics. University of Chicago Press (1953), 1970. pp. 3-4.
[3] Far from providing an easier means for sifting valid from invalid hypotheses, it only confuses the issue, promotes misunderstanding about the significance of empirical evidence for economic theory, produces a misdirection of much intellectual effort devoted to the development of positive economics, and impedes the attainment of consensus on tentative hypotheses in positive economics. (Tradução livre). FRIEDMAN, Milton. The Methodology of Positive Economics. In Essays in Positive Economics. University of Chicago Press (1953), 1970. P. 8.
[4] (…) abstracts the common and crucial elements from the mass of complex and detailed circumstances surrounding the phenomena to be explained and permits valid predictions on the basis of them alone. (Tradução livre). FRIEDMAN, Milton. The Methodology of Positive Economics. In Essays in Positive Economics. University of Chicago Press (1953), 1970. P. 8.
[5] The process must be discussed in psychological, not logical, categories; studied in autobiographies and biographies, not treatises on scientific method; and promoted by maxim and example, not syllogism or theorem. (Tradução livre). FRIEDMAN, Milton. The Methodology of Positive Economics. In Essays in Positive Economics. University of Chicago Press (1953), 1970. P. 27.
Se você gostou desse post, leia também:
- Working paper: Cooperativas de Crédito como prevenção a novas crises econômicas
- Análise Econômica do Direito: essa ENORME desconhecida


Pingback: Tweets that mention A Visão de Friedman sobre a Metodologia Econômica – Working Paper | Henrique Arake -- Topsy.com
Pingback: Blogs da ADVFN Brasil » A Visão de Friedman sobre a Metodologia Econômica – Working Paper
Pingback: Estratagemas Erísticos #5 – Uso intencional de premissas falsas | Henrique Arake